25 de mar de 2009

Os prazeres do mundo e a iluminação

Esse foi um tema bem recorrente na viagem de volta do retiro de Vipassana, entre eu e meus 3 companheiros de viagem: Todos os dias ouvíamos que esse caminho, o caminho da meditação Vipassana, era o caminho para a iluminação, para uma vida sem sofrimento. Mas o que é exatamente a iluminação? O que é viver sem sofrimento? Viver sem sofrimento é também viver sem os prazeres da vida? Porque os prazeres geram apego, que gera sofrimento... Durante seis horas de viagem, ríamos bastante ao confessarmos que estávamos muito bem vivendo dessa forma, e que não nos interessava muito uma iluminação solitária e sem sal. Agora, depois de três semanas, a idéia voltou à minha cabeça.

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Ainda não é muito clara pra mim a idéia de iluminação. Já li algumas coisas, já ouvi outras, mas sempre acaba voltando aquela imagem do yogui que morou anos numa caverna, sozinho, sem alimento, mas com uma sabedoria e um poder plenos. Se alguém que ler esse post tiver uma boa resposta para o que é iluminação por favor não hesite em responder a essa buscadora com sede de opiniões! Mas volto a dizer o que disse quando voltava a São Paulo aos meus amigos meditadores: essa iluminação solitária não me interessa.

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Ok, Mariana, então, você é louca! Pratica yoga todo santo dia, fica vários fins de semana em workshops e cursos praticando o dia todo, passa dez dias sem falar meditando o dia inteiro, e agora vem me falar que não está interessada em ser iluminada? Então por que raios você faz tudo isso? Essa resposta eu tenho: Para viver mais feliz!! Para viver em harmonia comigo mesma, para encarar os obstáculos e sofrimentos da vida de forma mais leve e saudável. E tem funcionado muito bem, apesar de eu ainda ser um bebê engatinhando.

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Mas os prazeres da vida são deliciosos e eu não tenho a mínima vontade de abrir mão deles. Quero continuar tendo ataques de risos até sair lágrima do olho, quero continuar me apaixonando, vendo o mundo cor de rosa, e se a desilusão vier quero continuar aprendendo com ela pra fazer diferente da próxima vez. Quero continuar sentindo um enorme prazer ao desfrutar de uma boa comida. Quero continuar ficando arrepiada quando conheço um lugar novo com uma linda paisagem. Quero continuar curtindo a deliciosa companhia dos meus queridos amigos. Quero continuar feliz a cada novo aluno que me aparece. Quero continuar vivendo com conforto, e quero poder comprar uma blusinha nova de vez em quando. Quero continuar ouvindo música e cantando junto, quero continuar chorando que nem uma boba no final de todos os filmes, e quero enfrentar e sair de cada situação difícil com uma experiência e uma sabedoria maiores. A minha busca, ou a minha iluminação, é conseguir viver assim, com harmonia e discernimento. Aqui, bem aqui, nesse mundo doido onde a gente vive.

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Namaste!

3 comentários:

Gustavo Cunha disse...

Namaste,

Vou tentar clarear esse assunto de "iluminação" e depois dar a minha visão sobre o resto.

O objectivo do Yoga é, segundo Patanjali, nirvikalpa samadhi, a cessação de qualquer tipo de pensamento na mente. Ver aqui.

Essa ideia que é necessário fugir de toda a civilização e viver isolado numa caverna para atingir esse estado está realmente incutida no nosso imaginário mas é discutível, para além de ser um pouco romantizada.

Para o Vedanda, Moksha, a libertação do Samsara pelo conhecimento e a realização que já somos o que buscamos, o Ser pleno, imortal e ilimitado dá-se vivendo uma vida de acordo com o Dharma, e escutando as palavras das Upanishads da boca de um Guru realizado. Como é o caso de Swami Dayananda.

As outras buscas essenciais de qualquer ser (inclusivé não-humano) são Artha (segurança) e Kama (prazer) que proporcionam riqueza e a satisfação dos desejos naturais.

Aquele que realmente deseja o conhecimento ("iluminação"/liberação) com a mesma vontade que busca água para apagar um fogo no seu cabelo é chamado de mumukshutvam.

Um bom ponto de partida para o estudo de Vedanta, o meio de conhecimento que revela o Ser, é a leitura do Tattvabodhah e, claro, da Bhagavadgita.

Tu dizes: "Mas os prazeres da vida são deliciosos e eu não tenho a mínima vontade de abrir mão deles."

Tem um jeito de ver a vida, segundo a Gita, que Swami Viditatmananda explana da seguinte forma:

- Aceitar as situações da vida como prasada do Senhor;

- Aceitar a Sua lei do Dharma, os valores universais;

- Cultivar a discriminação, entre o que é eterno e o que é efémero.

Renunciar às preferências individuais, renunciar ações baseadas em Adharma e finalmente renunciar ao ego. O único desejo que permanece é ser livre de desejos pessoais, deixando que os Seus desejos sejam os meus. Aceitá-Lo como a meta na vida, servir sempre com a mente envolto Nele e Ele libertar-nos-á do ciclo de renascimentos. [Ver Bhagavadgita (18-66).]

Este é um processo de amadurecimento emocional que requer disciplina e estudo, esforço e persistência que dá uma chance a qualquer ser humano de atingir a sua verdadeira natureza.

Para uma pessoa como tu, que estuda Yoga e que, para além disso, ensina Yoga com o tempo poderá tornar-se o caminho mais natural.

Definitivamente, com altos e baixos, como é normal, mas "nunca irás regredir assim que aceites o caminho do conhecimento" - Swami Viditatmananda.

Espero ter contribuído de forma positiva Mariana.

Peço desculpa por usar demasiados termos sânscritos mas, de outra forma, seria impossível postar um comentário menor que um livreto.

:-)

Harih Om,
Gustavo

coisas de frozina disse...

Mari, amei este texto porque ele faz todo o sentido pra mim! Não vejo incoerência em você vivenciar essas experiências e concluir que dá sim pra viver de um jeito melhor sem se privar de ser "mundana-humana"! Eu sou tão "mundana-humana" quanto você e fico feliz em tê-la como mestra de yoga não só por você passar sua sabedoria com honestidade, mas por você ser de verdade! Viva os encontros regados a boas risadas, boa música, bons amigos e vinho, por favor!
Beijos.

Fernanda R. Lima disse...

Nossa Mari, que post bacana.. me fez pensar um monte. E o comentario do Gustavo mais ainda...

Acredito que a iluminacao possa ser interpretada de diversas maneiras... para mim o caminho do Yoga e do Ayurveda sao o meu Dharma e me fazem acreditar que estou no caminho de luz...

O ato de ajudar o outros, de ensinar essas culturas milenares ja eh em si um ato iluminado.

Acredito que varias dessas suas sensacoes e emocoes sejam muito importantes para a sua evolucao como pessoa... o que devemos deixar para tras aos poucos ao meu ver eh o excesso de coisas materiais... e tentar viver com o basico.. de uma maneira mais SATTWICA mais equilibrada.

Mas eh isso ai o importante eh se questionar SEMPRE e aprender e trocar com pessoas assim como vc e o Gustavo.

Namaste!!

Fe