26 de mar de 2009

sobre iluminação

Recebi um ótimo comentário sobre meu post abaixo do Gustavo Cunha, professor de Portugal. É um ótimo embasamento teórico, tanto que pedi a ele autorização para colocá-lo aqui. Só queria antes de tudo esclarecer que eu não quis dizer que os textos antigos colocam essa imagem do "iluminado solitário", mas que muitas vezes é o que acaba surgindo no senso comum. Conheço alguns dos textos citados pelo Gustavo e gosto muito. Mas independente disso, continuo me sentindo bem mundana, e não vejo nada de contraditório nisso. Bks Iyengar, mestre que cito muito por seguir seus ensinamentos, diz que apesar de ter uma profunda busca espiritual (e na minha opinião já ter encontrado muito), e citar muito os textos de Patanjali, entre outros, em seus livros, sempre preferiu seguir na "vida mundana", como pai de familia e trabalhador.

Aqui está o texto do Gustavo. Aproveitem!

Gustavo Cunha deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Os prazeres do mundo e a iluminação":

Namaste,
Vou tentar clarear esse assunto de "iluminação" e depois dar a minha visão sobre o resto.
O objectivo do Yoga é, segundo Patanjali, nirvikalpa samadhi, a cessação de qualquer tipo de pensamento na mente. Ver aqui.
Essa ideia que é necessário fugir de toda a civilização e viver isolado numa caverna para atingir esse estado está realmente incutida no nosso imaginário mas é discutível, para além de ser um pouco romantizada.
Para o Vedanda, Moksha, a libertação do Samsara pelo conhecimento e a realização que já somos o que buscamos, o Ser pleno, imortal e ilimitado dá-se vivendo uma vida de acordo com o Dharma, e escutando as palavras das Upanishads da boca de um Guru realizado. Como é o caso de Swami Dayananda.
As outras buscas essenciais de qualquer ser (inclusivé não-humano) são Artha (segurança) e Kama (prazer) que proporcionam riqueza e a satisfação dos desejos naturais.
Aquele que realmente deseja o conhecimento ("iluminação"/liberação) com a mesma vontade que busca água para apagar um fogo no seu cabelo é chamado de mumukshu.
Um bom ponto de partida para o estudo de Vedanta, o meio de conhecimento que revela o Ser, é a leitura do Tattvabodhah e, claro, da Bhagavadgita.
Tu dizes: "Mas os prazeres da vida são deliciosos e eu não tenho a mínima vontade de abrir mão deles."
Tem um jeito de ver a vida, segundo a Gita, que Swami Viditatmananda explana da seguinte forma:
- Aceitar as situações da vida como prasada do Senhor;
- Aceitar a Sua lei do Dharma, os valores universais;
- Cultivar a discriminação, entre o que é eterno e o que é efémero.
Renunciar às preferências individuais, renunciar ações baseadas em Adharma e finalmente renunciar ao ego. O único desejo que permanece é ser livre de desejos pessoais, deixando que os Seus desejos sejam os meus. Aceitá-Lo como a meta na vida, servir sempre com a mente envolto Nele e Ele libertar-nos-á do ciclo de renascimentos. [Ver Bhagavadgita (18-66).]
Este é um processo de amadurecimento emocional que requer disciplina e estudo, esforço e persistência que dá uma chance a qualquer ser humano de atingir a sua verdadeira natureza.
Para uma pessoa como tu, que estuda Yoga e que, para além disso, ensina Yoga com o tempo poderá tornar-se o caminho mais natural.
Definitivamente, com altos e baixos, como é normal, mas "nunca irás regredir assim que aceites o caminho do conhecimento" - Swami Viditatmananda.
Espero ter contribuído de forma positiva Mariana.
Peço desculpa por usar demasiados termos sânscritos mas, de outra forma, seria impossível postar um comentário menor que um livreto.
:-)
Harih Om,Gustavo

Um comentário:

Gustavo Cunha disse...

Namaste Mariana,

Faltou apenas postar os links do comentário original.

Aqui vão:

- "the ultimate goal in Yoga is nirvikalpa samadhi, where the mind completely ceases to have any thoughts" aqui;

- Swami Dayananda aqui;

- Tattvabodhah de Sri Shankara, tradução e comentários de Gloria Arieira aqui;

- Swami Viditatmananda aqui.

E, já agora, ainda sobre o assunto do retiro como forma de chegar à iluminação sugiro o filme Samsara. Fala precisamente sobre a vida de um jovem monge budista após terminar um retiro de 3 anos, 3 meses e 3 dias. O trailer pode ser visto aqui, embora não faça jus ao filme.

Tudo de OM!
G

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bhajagovindam bhajagovindam
govindam bhajamudhamate