12 de set de 2010

A importância da técnica





Esse tema tem surgido constantemente nas minhas conversas, não sei ao certo por quê. Mas depois de algumas recorrências, resolvi desenvolvê-lo melhor. Já falamos aqui no blog, e muitos dos leitores já devem ter ouvido falar, dos 8 passos do yoga, que Patanjali chama de Astanga yoga (não confundir com a linha de hatha yoga, chamada Astanga vinyasa). São eles: Yamas (condutas éticas), Nyamas ( condutas pessoais) , Asanas( posturas), Pranayamas (trabalho sobre a energia vital através da respiração), Pratyahara ( domínio sobre os sentidos), Dharana ( concentração), Dhyana ( meditação), Samadhi ( iluminação, ou libertação).

Não é um caminho linear. Assim como podemos entrar em um estado de dharana durante uma prática de ásanas, podemos ter vislumbres de samadhi e depois voltar a um estado de total entrega às flutuações da mente. É exatamente sobre isso que gostaria de falar. Patanjali, em seus Yoga Sutras, fala que quando se atinge um estado de samadhi, essa é a hora onde se deve tomar mais cuidado, pois o ego, quase com seu território total perdido, vai fazer de tudo para aparecer com toda força. E é exatamente aí que mora o perigo. Pois quando chegamos aonde queríamos, depois de tannto esforço, o orgulho, a soberba, falam forte. E a queda é bem grande. Existe um jogo chamado Mahalila. É um jogo de tabuleiro que representa o seu caminho dentro do yoga. Começamos de baixo, e por meio de casas, escadas e escorregadores representados por serpentes, subimos e descemos atingindo camadas mais ou menos sutis da nossa consciência. E é exatamente lá em cima, no finalzinho do jogo, onde está a maior queda, que nos leva de volta ao inicio de tudo. Isso acontece o tempo todo em nossas vidas, e por isso, ou para isso, temos a técnica como grande aliada. Pois é ela que nos faz lembrar que ainda somos humanos com egos insistentes, e que o caminho não termina. É ela que nos mantém focados no presente, a técnica, seja qual for. Sempre digo que o asana é um mecanismo muito eficiente. Mas há outros, como a meditação. Quando fiz o retiro de meditação Vipassana, ouvi muitas vezes sobre a importância de manter a técnica. Ficávamos muitas horas por dia sentados em posição de meditação em contato conosco, com nosso corpo. Dessas horas, em alguns momentos conseguíamos realmente acalmar a mente e nos sentíamos totalmente presentes. E era exatamente nesse momento que deveríamos continuar com a técnica de meditação, pois é a hora em que com mais facilidade nos perdemos.

Uma imagem básica e muito eficiente é a daquele homem que depois de anos de meditação, estudos e um árduo trabalho espiritual, finalmente atinge a sua iluminação. Quando isso acontece, a alegria é imensa. Ele se sente feliz e orgulhoso por finalmente ter chegado onde queria, e, pior, superior a todos que estão à sua volta. Finalmente ele se desvinculou do ego! Que genial que ele é! Pronto. A situação não durou mais que um breve tempo de um pensamento e ele voltou para a estaca zero, talvez até abaixo dela.

Já ouvi falar também de pessoas que por serem extremamente sensíveis, não se sentem bem fazendo meditação, por exemplo, porque se perdem em lugares desconhecidos. A técnica ajuda para que essas pessoas permaneçam presentes e conscientes, sem perderem a lado bom de sua sensibilidade.

Por isso uma ajuda externa é sempre bem vinda, pelo menos no inicio. É uma pessoa que vai te dar uma orientação e um apoio, seja numa pratica de ásanas e pranayamas, seja num estudo sobre espiritualidade. Além de que a parceria faz com que vejamos o outro, e isso nos ajuda a sair um pouquinho do nosso eu dominado pelo nosso ego. Cada um pode escolher um caminho. São inúmeros. Mas seja qual for o caminho que você escolher, quando estiver chegando lá longe, lembre-se que a vida é cíclica e não linear, e aproveite a ajuda da técnica!

Namaste!

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