2 de jun de 2009

Pessoas aflitas

"As aflições são um determinado padrão de perturbação da consciência humana, tão universais e presentes quanto mosquinhas em maçãs frescas."

Não resisti em colocar essa frase do Iyengar, a forma como ele começa seu capítulo sobre os Klesas (aflições) no livro "Luz na vida". Porque , para começar a falar sobre esse tema, queria primeiro desmistificá-lo. Sim, todos passamos por isso, constantemente. E isso não é um defeito, mas um padrão natural. Agora, vamos ao assunto:

Os Klesas são as aflições da mente humana, que manifestamos através pensamentos, reações ou padrões de comportamento. Estão presentes de diversas formas, em menor ou maior proporção, no decorrer de nossa vida, e são grandes obstáculos pois nos fazem agir de maneira repetitiva e egóica e, claramente, nos levam ao sofrimento. São eles: avidya (ignorância), asmita (orgulho), raga (apego), dvesa(aversão) e abhinivesa (medo da morte).

O primeiro, Avidya, é o precursor de todos os outros. Ignorância no sentido de ignorar a verdade, ou ignorar o que é permanente e o que é efêmero. Por conta da ignorância, sentimos orgulho de tudo que é nosso. MEU. Minha ideia, minha maneira de pensar, meus filhos, meus amigos, meus bens materiais... EU sou assim, eu tenho essa maneira de agir... É o segundo klesa, asmita. A tradução para asmita é "identidade do eu". Porém, esse eu, na verdade, é o ego, e não e nosso eu mais profundo, A Ignorância nos faz confundir os dois e dar para o eu egóico uma importância extrema, uma maneira de nos protegermos do resto do mundo. "Eu sou mais eu", ou eu sou mais bonito, mais inteligente, mais (!!!) evoluído espiritualmente...

E com esse grande apego à nossa pessoa, chegamos ao terceiro klesa, Raga, que podemos chamar de apego, ou desejo. Minha ideia inicial era escrever somente sobre essa aflição, então vou me focar nela por mais tempo. Nos apegamos a tudo que o nosso orgulho e a nossa ignorância afirmam ser nosso: carros, roupas, livros, marido, namorado, amigos, familia... E isso significa que temos um grande medo de perdê-los. Nos apegamos também a ideias e sensações. Por ideais e em busca de sensações de poder, ou por medo de perdê-los, aconteceram tantas guerras no mundo. Acontecem tantas guerras todos os dias, dentro de nós. Por apego à quem somos, ou o que acreditamos ser. Se tivessemos realmente claro em nossa mente que tudo é efêmero, não teríamos tanto medo de perder entes queridos, por exemplo, pois saberíamos que a única coisa que não morre é a alma. Mas o apego está presente em situações muito mais cotidianas. Para os praticantes de hatha yoga, por exemplo, podemos nos apegar à uma sensação boa que conquistamos durante um ásana. "Hoje eu vou fazer um sirshasana incrível como o da semana passada. Foi delicioso, fiquei imóvel por cinco minutos, e era capaz de sentir cada pedaço de pele, totalmente presente". Pronto, é o apego falando mais alto. Você não está presente, e seguramente o ásana hoje não será o mesmo. Bem, a verdade é que nunca é. O problema é que o apego por experiências passadas gera frustrações e sofrimento. Eu mesma, quando escrevi há uns meses sobre a iluminação, assumi que sou completamente apegada a determinadas sensações.

O quarto klesa é um irmão bem próximo do apego, mas com características opostas: é a aversão, ou dvesa. Raga diz: "Eu quero isso, eu não quero perder aquilo". Dvesa diz: "Mantenha isso bem longe de mim!!" "Não quero sentir isso, não quero ter que passar por essa situação, detesto esse lugar, odeio aquela pessoa!!!" Mas uma vez, é a ignorância falando mais alto. Afinal, se somos todos a mesma essência, não deveríamos odiar um ao outro. Se sabemos que o ego é algo superficial, porque ficar tão ofendido com uma ideia oposta à nossa?Se sabemos que estamos em constante transformação e aprendizado, porque ter aversão à sentimentos como rejeição, solidão, derrota? Somente a aversão ao sentimento de rejeição já daria tema pra um texto inteiro, e já falei sobre isso algumas vezes por aqui.

Por fim, ó quinto e último klesa é abhinivesa, ou medo da morte. Da mesma forma que a ignorância é a mãe de todos os klesas, o medo da morte é o filho caçula, que foi criado a partir de todos os outros. Nossa identificação com o nosso ego, nosso apego à ele e nossa aversão ao desconhecido faz com que tenhamos medo de morrer. Tudo isso, porque ignoramos o que é verdadeiro.

Nesse mesmo texto, Iyengar sugere a meditação (dhyana) como a maneira de trabalharmos as nossa aflições. Aquietar a mente faz com que tenhamos uma visão mais clara da realidade. E para chegar lá, passamos por todas as outras etapas no caminho do yoga: yamas, nyamas, ásanas, pranayamas, pratyahara, dharana... É um longo caminho... Quem topa embarcar nele?

Namaste!

3 comentários:

Fernanda R. Lima disse...

Namaste Mari!

Na minha aula de hoje com a professora Greta Hill, falamos muito sobre Abhinivesa em função da queda do avião da Air France.

Dedicamos então a nossa aula ao sagrado presente momento..e agradecemos por estarmos cheios de prana...

Beijão

Gustavo Cunha disse...

Namaste,

Ao que parece você, a Fê, eu e o Fernando - que escreveu o post que publiquei no yogavaidika - estamos ligados nessa atenção aos kleshas.

Como diz o Swami Paramarthananda: "apenas através da educação sistemática será possível aprender algo, e o mesmo equivale para o conhecimento espiritual", neste caso a identificação dos kleshas e a sua inluência na nossa vida.

Continue estudando Mari, nós estamos com você.

Hari Om,
Gus

coisas de frozina disse...

Adorei, Mari! Tenho pensado muito sobre o apego em relação à imagem que fazemos de nós mesmos, sabe?! Sobre como "devo" agir "já que sou assim e não assado"... Em época de mudanças, nada como exercitar o desapego, né? É um exercíco meeeesmo!
Saudade.
Beijo grande,
Fabi