18 de out de 2009



" Seu corpo existe no passado e sua mente existe no futuro. Com Yoga, eles se unem no presente"


B.K.S Iyengar

14 de out de 2009

O estudo do eu

Por Mariana Akamine

Observar-se, sempre. Observar-se durante uma prática de asanas, observar-se durante uma prática de pranayamas, observar-se durante o almoço. Observar-se durante uma conversa entre amigos, nos momentos de risadas, de choro, de raiva, e nos momentos neutros. Observar-se durante o namoro, a paquera, o sexo. Observar-se quando está assistindo a televisão ou lendo um livro. Quando está trabalhando e quando está de férias. Quando está na rua, em casa, no carro, na vida. Não observar-se de uma maneira racional, analítica, mas de maneira sensitiva, com o coração e sem apego. E assim, aprender com os erros e acertos, com as ações e reações. Conhecer-se.
Namaste!

9 de out de 2009

Estabilidade no Ásana

Por Fábio Faleiros


A primeira codificação escrita sobre o Yoga foi feita por Patanjali nos seus 196 sutras, conhecida também por Astanga-Yoga, ou o yoga das oito partes ou membros, sendo o asana uma dessas partes. Dentre esses 196 sutras, apenas 3 tratam diretamente sobre os asanas, por isso é importante conhecê-los, entendê-los e sempre usá-los como referência em nosso estudo e prática. Segundo Alicia Souto, da escola Kaivalyadhama de Lonavla, em sua tradução do Hatha Pradipika, a palavra asana deriva da raiz sânscrita “as” traduzida como sentar-se, sendo interpretada fisicamente como postura ou assento e metafisicamente, em muitos textos antigos, como “estabelecer-se no estado original”.
A definição de estabilidade vem do sutra II-46 “sthira-sukham asanan” que diz que a “postura deve ser estável e confortável”. Outros adjetivos citados no livro Luz na Vida, de B.K.S. Iyengar, para sthira são: firme, fixo, constante, resistente, duradouro, sereno, calmo e tranquilo; e para sukham são: deleite, conforto, alívio e beatitude.
Então a estabilidade começa na postura, no corpo físico, o que implica permanência na postura, ficar parado, e para isso ocorrer é necessário realizar a ação correta na construção e permanência do asana.
Segundo Iyengar, “o asana é a firmeza perfeita do corpo, a constância da inteligência e a benevolência. O asana é antes postura, depois permanência que envolve tempo parado na postura, depois reflexão, que envolve a inteligência reflexiva. Com isso se chega à ação correta. Inteligência é a percepção estendida a cada célula do corpo, percepção que começa no comando do cérebro para os órgãos da ação, e dos órgãos da ação para o cérebro, sobre o que eles percebem. O corpo que deve lhe dizer o que fazer, não o cérebro. O corpo como veículo de comunicação entre o externo e o interno. Em cada etapa do asana, é preciso saber qual deve ser a função ou estado de cada região e de cada parte do corpo, se ativa ou passiva, estável ou móvel.”
Através do processo voluntário na execução dos asanas e pranayamas, atua-se no sistema nervoso vegetativo. Quando se mantêm a atenção focalizada no asana e mantendo-a por um determinado tempo, ocorre a memorização daquela situação dentro do sistema nervoso. Assim, se reconstitui a alteração que se dá na fisiologia, o corpo pode corrigir, fazer alterações, e manter essas alterações. Então, o esforço para se manter numa determinada postura tende a ser cada vez menor, liberando a mente no caminho da introspecção. Esse esforço é caracterizado por envolver uma grande força de vontade e persistência nas práticas.
Iyengar diz: “o corpo, as células, já sabem se colocar corretamente, então pode se afastar do corpo, mesmo estando presente no mesmo. O esforço diminui à medida que progride, mas a realização aumenta”.
E nesse sentido tem-se o sutra II.47: “a permanência no asana deve ser feita através do relaxamento do esforço”. O corpo mantêm-se firme, porém relaxado. Do livro Árvore do Yoga: “a permanência na postura implica ação. Repousar significa refletir sobre a postura. A postura é pensada e reajustada, para que os vários membros e segmentos corporais sejam posicionados em seus devidos lugares na ordem certa, e a sensação seja de descanso e apaziguamento, enquanto a mente experimenta a tranqüilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras e das células”.

Então a construção correta de um asana deve ser feita observando-se esses 2 sutras. Alguns passos nessa direção, do livro Luz na Vida:

1. corrigir-se primeiro na base, na parte mais próxima ao chão (raiz) e lembrar que a base firme, estável, relaxa a mente. Ao mesmo tempo, a serenidade do corpo, vem da tranqüilidade espiritual.
2. eliminar através da autoobservação, autopercepção, as tensões desnecessárias, as tensões não relacionadas diretamente à manutenção do asana.
3. não se fixar em quanto se quer alongar, mas em alongar-se corretamente. É o corpo que deve lhe dizer o que fazer, não o cérebro. Refletir entre um movimento e outro, mas deve haver uma análise constante durante toda a ação também. Enrijeça apenas quando atingiu a posição, porque durante o movimento os músculos devem estar abertos e flexíveis.
4. sentir a extensão até os limites da pele. Estender-se a partir do seu centro. Estender e expandir o corpo e ter a sensação de criar espaço em TODAS as direções.
5. observar as sensações, tanto de prazer quanto de dor. Com paciência e disciplina resistir no asana, ultrapassar a dor e lembrar que na postura correta não há dor. Desfrutar de cada pequeno progresso.
6. pense e sinta-se leve, transmitir a sensação de leveza para todo o corpo.
7. observar o que é um ego inflado (hiperextensão) ou um ego tímido ou medroso (extensão insuficiente) na execução dos asanas. Lembrar que o EU é o único espectador.
8. a estabilidade requer equilíbrio entre a ação e a resistência.
9. todos o s movimentos devem ser feitos na expiração, pois ela elimina o estresse e a tensão do corpo.
10. soltar o esforço e o retesamento dos músculos e transferir a carga para os ligamentos e as articulações, de modo que mantenham a estabilidade do asana.
11. relaxar a cabeça, o cérebro, a língua, a garganta, o pescoço. Relaxar o olhar e voltá-lo para trás, para dentro, ampliar a visão, ter uma visão periférica e interior. Isso ativa as regiões posteriores do cérebro, que são mais integrativas.
12. passar de um estado de concentração dividida entre as diversas partes do corpo, para um estado de concentração único, mesmo que superficial ainda.
13. a mente sentindo a inter-relação entre as partes do corpo, e se movimentando com o corpo todo, não mais com as partes separadamente.
14. a mente desaparece e a inteligência e o corpo se tornam um.
15. a inteligência apresenta o Eu, o corpo é esquecido, isso é estar liberto do corpo.

O corpo físico é fonte de perturbações da mente e a prática persistente e a permanência nos asanas traz saúde plena e libera a mente das perturbações do corpo, e ao mesmo tempo, é necessário um corpo saudável para lidar com a energia promovida pelas correntes prânicas. Mas tudo isso para que o corpo seja um veículo, não obstáculo, de comunicação de mão dupla, com o mais sutil, com o EU.
A estabilidade passa do corpo para outros aspectos, como a firmeza e estabilidade do caráter. Estabilidade no dia a dia, no ser, no agir. Integração entre o sentir, pensar e agir. Não analisar mais, não refletir mais, e estar livre do ataque dos opostos, das dualidades, como diz o sutra II.48.
A prática do Yoga é viver o estado de equilíbrio, é viver o presente: aqui e agora. “Viver no presente se vive na eternidade”, diz Iyengar.
Quando agimos com o Coração, obtemos plenitude naquilo que fazemos, porque nessa plenitude tudo é possível sem esforço, porque é movido pela lei natural da vida.